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Agrissilvicultura com palmeira real

Por Ingo André Haberle


Referência: artigo INOVAÇÃO NO AGRONEGÓCIO FLUMINENSE, publicado em A Lavoura, Rio de Janeiro, RJ: Sociedade Nacional de Agricultura, v.115, n.690, p. 47-49, jul. 2012, como uma opção sustentável para o agronegócio.

A Agrissilvicultura é uma ciência que envolve técnicas para a prática de cultivo conjunto entre árvores e culturas agrícolas (em um mesmo ambiente, também denominados Sistemas Agroflorestais – SAFs). Quando utilizada em áreas desmatadas, possibilita a inclusão nestas mesmas áreas de plantas de interesse econômico e ambiental, favorecendo ao mesmo tempo o meio ambiente e o agronegócio.

A “Agrissilvicultura com palmeira real” é uma alternativa tecnicamente viável, economicamente rentável, que auxilia na recuperação de áreas degradadas e possibilita o Desenvolvimento Sustentável da Cadeia Produtiva do Palmito de Qualidade.

O Palmito é uma alternativa de renda muito interessante para o Agronegócio Brasileiro. Este produto é muito apreciado pela gastronomia mundial, tem elevado valor agregado, principalmente quando apresenta características sensoriais desejáveis como: textura macia, gosto delicado e cor branca. Geralmente é comercializado sob a forma de conservas, e recentemente in natura em churrascarias e restaurantes especializados.

Inserido no mercado de alimentos a partir dos anos 30 do século passado. Inicialmente a oferta comercial do palmito brasileiro do extrativismo florestal que levou a devastação das Palmeiras Jussara da Mata Atlântica, seu bioma natural, sendo atualmente protegida. Atualmente 90% da oferta de palmito é proveniente da Palmeira do Açaí, que vem da Amazônia, que além de causar impacto nos palmitais nativos, apresenta características sensórias inferiores e principalmente, um negativo balanço energético considerando a distância de seis mil quilômetros entre a extração, beneficiamento e consumo, percorridos em caminhões a óleo diesel trazendo água da Região Amazônia para ser desprezada antes do seu consumo.

Como uma alternativa, a região Sul do Brasil que já produzia a Palmeira Real como planta ornamental, deu início a um projeto objetivando a obtenção do palmito da mesma. Diante da potencialidade e adaptação da cultura, há 10 anos os estados de Santa Catarina e do Paraná já produzem e comercializam o palmito de Palmeira Real, inclusive com incentivos provenientes de recursos públicos para o plantio.

Os bons resultados das explorações sulinas despertou interesse na região Sudeste onde já existem plantios em São Paulo, Minas, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro o despertar para essa Inovação no Agronegócio se deu ainda em 1999 quando um grupo originado de ONGs e Associação de Moradores (AMAMA) deu inicio ao Projeto Portal Sul do Parque Estadual da Pedra Branca (um dos maiores parques urbanos do mundo), de forma a demonstrar alternativa ambiental e econômica para dezenas de milhares de famílias, remanescente da antiga área rural do entorno do Parque Estadual da Pedra Branca, que sobrevivem com a subsistência da bananicultura que apresenta baixo retorno econômico e grande potencial de erosão do solo, perda de água e risco de incêndio para a mata atlântica protegida pelo Parque Estadual (PEPB).

A palmeira real é uma cultura que se desenvolve bem em áreas sombreadas, que é dado inicialmente pela bananicultura ou capões e substituído continuamente pelo plantio de espécies florestais naturais da Mata Atlântica, proporcionando a formação de uma floresta rala e a recuperação de áreas degradadas.

No projeto piloto a inserção da Palmeira Real, plantada em 10,00 hectares no Portal Sul do Parque Estadual da Pedra Branca, demonstrou sua grande potencialidade quanto ao fator ambiental para preservação e proteção através da criação de cinturão verde agroflorestal, que consistirá em um cordão de isolamento impedindo a proliferação dos focos de incêndio, e também, percebe-se o aumento da produção de água e recuperação das nascentes, resultado da maior infiltração e armazenamento de água no subsolo que não se perdeu pelas enxurradas.

Atualmente o plantio de Palmeira Real tem sido utilizado em vários locais para a recuperação de áreas degradadas e nascentes, cujo volume hídrico diminuiu em décadas de desmatamentos locais.

O projeto que a principio tratava a Palmeira Real como uma alternativa local para os bananicultores da região de Guaratiba na Cidade do Rio de Janeiro, os quais estão tendo sua renda cada vez mais diminuída pelo empobrecimento e erosão dos solos, doenças da cultura e escassez da mão de obra familiar, foi além disso e envolveu profissionais da Embrapa, Emater-Rio, MDA, MAPA, Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado do Rio de Janeiro, Ong Work, Ong Organica Brasil, IBJ e Tropiflora, que estão trabalhando nessa inovação para diversos municípios fluminenses, principalmente para a região Serrana (Petrópolis, Teresópolis e Friburgo), onde a retenção hídrica é crucial nos vales que apresentam vários KM2 de áreas desmatadas, com riscos anuais de novos desastres.

Estima-se que atualmente há cerca de 60.000 ha. de Palmeira Real plantada exclusivamente para a produção de palmito no Brasil.

No Estado do Rio de Janeiro, os municípios que já tem produção de Palmeira Real no sistema de Agrissilvicultura são: Angra dos Reis, Conceição de Macabu, Silva Jardim, Bom Jardim, Cachoeira de Macacu, Nova Iguaçu, Silva Jardim e Petrópolis.

Alguns atrativos que chamam a atenção quanto a Agrissilvicultura com Palmeira Real:

• Custo relativamente baixo de implantação da lavoura;

• Baixo custo de manutenção;

• Superior características organolépticas e textura do palmito;

• Maior precocidade de produção - em média, 36 meses após o plantio efetua-se o corte (a variedade não perfilha);

• Boa produtividade de palmito por área e com bom rendimento no processamento;

• Boa resposta de plantio dentro da mata ou capoeira.

• Aumento em dez vezes a renda quando comparada à bananicultura;

• Aumento da área de sombra que permite o aparecimento de espécies nativas;

• Estimulo ao agricultor para preservação de Mata Nativa;

• Melhora de nível de mananciais por reter água no subsolo e evitar as enchentes nas baixadas;

• Futura produção de biomassa (caule) que pode ser utilizado como carvão;

• As folhas podem ser usadas para ração animal (gado) ou recuperação do húmus e matéria orgânica no solo;

• Novidade em crédito de carbono (pois não há corte completo da área do produto e a floresta rala se manterá eternamente).

Dados Econômicos:

Na Região Sul em Santa Catarina a densidade de plantio chega a 16.000 pés por hectare.
Nos plantios de encostas do Rio de Janeiro, em áreas de bananais degradados os plantios variaram a densidade de 8000 a 10.000 pés por hectare.
Com vendas diretas para restaurantes do Polo Gastronômico de Guaratiba a receita por haste de palmito vai variar de 5,00 a 7,00 reais (pesos de 400 a 600 gr de palmito).

No caso da densidade de 10.000 palmitos temos uma renda acima de 10 vezes a atual com bananicultura.
O valor de 50.000,00 deve ser dividido por 3 anos de cultivo ,onde temos 15.000,00/ano em cultivo de palmeira real.
No cultivo extrativista de agricultura familiar a receita anual não passa de 1000,00/há com bananicultura.
Por ser uma cultura rústica, a palmeira real somente recebeu adubação de orgânico na cova com calcário, na implantação da produção.
Adubações químicas aumentam o desenvolvimento e peso do palmito, em pesquisas realizadas Epagri (Santa Catarina).