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COLUNA VERDE

Como tudo começou.

 

    A forma como grande parte das coisas acontece ou entra nas nossas vidas não é premeditada, quase sempre somos levados, convencidos ou forçados a embarcar em algo diferente do que queríamos e aí sim, entra o livre arbítrio, que é amplamente utilizado, mesmo quando o rumo que tomamos não é o que prevíamos. Mas, dependendo da situação e da forma como vemos isto, esta realidade nem sempre é ruim e às vezes surge algo muito maior do que imaginávamos para nós mesmos, que inclusive nos faz mudar e enxergar outras possibilidades. 

    Entrei na carreira de TI - Tecnologia da Informação, em 1998, jornalista formada e estudante do 5º período de administração de empresas, eu queria acima de tudo, assegurar um emprego e uma possibilidade de carreira, principalmente quando meus colegas jornalistas estavam praticamente todos desempregados ou ganhando tão pouco que o que recebiam mal cobria seus custos de transporte e alimentação.

    Agarrei a oportunidade com toda as forças e deixei de lado muitos dos meus sonhos, mas, não guardo nenhum rancor por isto, pelo contrário, considero que os 20 anos trabalhando com TI, serviram como purificação e também evolução, pois além de ter desenvolvido muitas formas de inteligência, não só a lógica, também aprendi a contornar problemas, me comunicar, ser paciente, suportar a pressão, ter disciplina, postura e o principal, a acreditar que é possível fazer qualquer coisa bem feita, desde que se precise ou realmente se queira. É só questão de perseverança e tempo. 

    E foi entendendo isto que no ano de 2009 eu decidi que retomaria um dos meus sonhos, que era escrever um romance útil às pessoas, mesmo nunca tendo publicado ou escrito nada. Assim, viajei sozinha para o Pará e lá encontrei o João Meirelles, um ambientalista renomado, fundador da OSCIP Peabiru, que generosamente me apresentou a diversos representantes de comunidades do Pará – em Cotijuba e Curuçá. Fiquei sete dias, conheci também Belém, Mosqueiro e Salinas. Senti o calor abrasivo da cidade e participei do Círio de Nazaré. 

    Não foi uma viagem fácil, eu não conhecia ninguém, mas, sabia que estava onde devia: fiz pesquisas, entrevistas e fui recebida por todos com carinho. Apesar disso, eu não deixava de ser uma estranha no ninho. Voltei pro Rio, mas, não os esqueci. Dediquei os finais de semana para escrever sobre eles, os lugares que conheci e as incríveis iniciativas socioambientais, que são alternativas econômicas criativas, pois conseguem gerar renda comunitária e conservar o meio-ambiente, ou seja, conciliam tudo!

    Em 2010 voltei para o Pará, novamente sozinha e nas minhas férias, levei uns cinco capítulos impressos, que contavam um pouco sobre estas iniciativas sustentáveis, os desafios e a trajetória destas comunidades rurais ou pequenos empreendedores. Quando os encontrei, logo eles me confidenciaram que tinham a certeza de que eu nunca voltaria. Tem muita gente que chega lá, com muitos planos e depois some. A região oferece sim obstáculos, e de diversas naturezas, mas, se havia algo que eu estava treinada, era para não desistir. Pena que aquele não era o melhor momento para eles. Logo depois que cheguei, descobri que os projetos sustentáveis em que eles estavam trabalhando, pararam, aguardando recursos e eles estavam dando o jeito que podiam, extraindo o sustento da natureza e reinventando formas de sobreviverem de seus novos ofícios socioambientais que podiam ser uma fonte de renda para toda a comunidade local.

    Comprei o maior número de produtos que podia e percebi que o problema deles não estava mais na capacitação, que havia sido feita pelo Peabiru, SEBRAE e outros institutos e sim na comercialização. Eles não tinham como escoar a produção. A partir daí comecei a tentar ajudá-los sendo uma representante comercial no Rio de Janeiro. Entendi que vender era mais urgente do que escrever o livro, pronto, eu já não estava mais seguindo o que planejara, as coisas mudaram. Não interrompi, mas, tive que reduzir o tempo dedicado ao livro e dividí-lo com ações voltadas ao fortalecimento do negócio deles. Produzi logotipos, banners, camisas, rótulos; enviei embalagens e encomendei produtos, mas, não consegui me tornar uma representante como eu imaginava. As encomendas que eu fiz ao longo do ano não foram revendidas, acabei ficando com a mercadoria quase toda. O pouco que vendi foi graças ao meu, na ocasião “namorido” e hoje marido, que diferente de mim, sabe comercializar.

    Em 2011 voltei para o Pará com mais capítulos e decidida a montar com eles todos os textos para criação de um catálogo de produtos, o objetivo era criar um material que facilitasse as vendas e até a formação de revendedores no Rio de Janeiro. Desta vez, eu não me sentia mais tão estranha no ninho, algo de especial foi se formando ali, entre mim e eles, ouso dizer que já me sentia entre amigos. Durante este ano fui também à Manaus e me reuni com outras comunidades, que desenvolviam atividades socioambientais similares às deles. Em Dezembro ficaram finalmente prontos os catálogos de produtos de duas das comunidades paraenses que eu me reunira, com as fotos e os conteúdos selecionados por eles. Mandei tudo por correio e eles adoraram! Mas, ainda assim as vendas não melhoraram o suficiente e eles continuavam longe de ter autonomia financeira em base sustentável. 

    Em paralelo eu continuava escrevendo o livro. Lembro que em 2009, eu era muito crua, mas, com o passar do tempo, de tanto escrever e reescrever, eu ia a cada ano, pegando mais o jeito e tornando o romance mais interessante. Escrevi o primeiro capítulo umas sete vezes e acredito que apenas após quatro anos (em 2013) e depois que já tinha chegado ao capítulo dezesseis, com mais de cem páginas finalizadas, entendi o que e como devia fazer. Não fiquei desanimada em ter que voltar ao prólogo, também não encaro que perdi tempo e nem me cobro por ter demorado tantos anos para encontrar o caminho, ao contrário, do fundo do coração, fico feliz por ter entendido a tempo de refazer e publicar. Eu já sabia que não tinha nascido escritora...

    Em 2012, depois que mais um projeto de TI (Tecnologia da Informação) consumiu, como de costume, toda a minha energia e tempo. O que é típico desta profissão, de Analista de Sistemas, aconteceu: eu tive a convicção de que não era mais pra eu continuar ocupando meu tempo da mesma forma. Fazendo uma analogia, é como se a água que começou a ser aquecida em 2009, agora entrasse em ebulição. O problema é que mesmo a minha energia estando bem distante da minha profissão, aquele ainda era o meu ganha pão e era através dele que eu podia inclusive patrocinar minhas ações socioambientais e o livro. O jeito era ter paciência e ir levando as atividades em paralelo.

    Pensando em como fazer para me dedicar em tempo integral ao livro, às comunidades e iniciativas sustentáveis, liguei para o Júlio Rocha, um escritor e uma pessoa muito bacana que promovia cursos e workshops para ensinar e incentivar os escritores novatos, como eu. Recorri ao Júlio, pois em seus workshops ele mostrava exemplos de que era difícil, mas, não impossível sobreviver como escritor, afinal, mesmo sem ser famoso ele havia encontrado um ou vários jeitos de fazer isto. 

    Foi aí que o Júlio me abriu um novo horizonte. Ele sugeriu que eu tentasse a lei Rouanet, de incentivo a cultura, organizando meu livro e as ações na Amazônia, através de projetos, a serem vendidos, a instituições públicas e/ou privadas. Dava-se início a uma nova fase na minha vida, a qual eu vou chamar de "Maratona de Captação: de Recursos ou de Sonhos?"

    A partir daí organizei dois projetos: um para as comunidades e outro para mim. O das comunidades entitulei Projeto Amazônia Justa e o meu Projeto Literário Marapuama.

    Gastei tempo e dinheiro tentando incessantemente recursos com empresas públicas e privadas. Participei de inúmeros editais, viajei para o Pará tentando recursos, fiz inúmeras apresentações e finalmente em Novembro de 2013, um mês após o meu casamento em Outubro de 2013, numa tarde fria, sentada em frente ao computador, tentando resolver problemas sistêmicos, recebi uma das mais maravilhosas notícias: o Projeto Amazônia Justa fora o escolhido, o único representando o Estado do Pará, no edital de seleção pública, criado pela Petrobras em parceria com o Governo Federal, denominado Integração Petrobras Comunidades!

    O projeto estava previsto para início em Janeiro de 2014 e duração de 2 anos.

    Em linhas gerais o projeto consistia na criação de uma loja virtual, www.istoesustentavel.com.br para apoiar associações de produtores rurais e pequenos empreendedores da Amazônia na comercialização de seus produtos e serviços sustentáveis. O projeto envolvia ações como capacitação, inclusão social, comércio justo, economia verde, combate à concentração de renda e o fortalecimento de iniciativas comunitárias.

    Esta conquista permitiria a extraordinária oportunidade de criar um e-commerce voltado ao escoamento da produção sustentável de comunidades produtoras na Amazônia, além de capacitação para a comunidade na gestão de seu negócio e no sistema para atualização direta do website, que não apenas seria utilizado para comercialização de seus produtos, mas, também para valorização e divulgação da associação/comunidade local. Por fim, o projeto previa ainda remuneração para os produtores nos 24 meses.

    Era o princípio do sonho de atuar na Amazônia a partir de um comércio justo, que incluía as comunidades e associações comunitárias numa cadeia produtiva, que valoriza os produtores e gera renda direta para eles, sem intermediários, que quase sempre pagam valores irrisórios por toda a produção.

    O projeto tinha ainda a finalidade maior de que a comunidade alcançasse autonomia financeira definitiva, que se organizasse em cooperativas, padronizasse seus produtos, adquirisse maquinário, treinamento e o mais importante, que toda renda obtida fosse a partir de iniciativas que conservam o meio ambiente e proporcionam distribuição justa de renda, já que o valor do que é comercializado é dividido entre os membros da associação.

    Apesar desta enorme conquista, eu ainda não havia conseguido a liberdade do meu tempo, pois a verba que recebíamos pela gestão do projeto era muito pequena para que conseguíssemos nos manter sem meu salário de TI.

    Meu marido e também parceiro do Instituto entrou como gestor do projeto, dando continuidade e fortalecendo o sonho de uma Amazônia Justa, ele também elaborou o Projeto Entrega Sustentável e se dedicou integralmente a ambos.

    Em Março de 2014 aconteceu a realização de outro sonho, um que embora eu quisesse achava que demoraria muito para acontecer: eu fiquei grávida!

    Mesmo com tantos desafios eu ainda consegui durante este período me dedicar em paralelo, revisei e publiquei um livro que havia escrito em 1997, chamado Barbosa Lima Sobrinho: o Nacionalista – uma homenagem ao centenário dele; com o objetivo principal de utilizá-lo num edital da Petrobras, o Cultural que tinha como pré-requisito uma publicação anterior.

    E também continuei lutando por captação de recursos para o projeto do livro, mas, infelizmente eu não consegui.

    Então, em 10.12.2014 aconteceu, meu filho, Paulo, nasceu e aí o mundo parou, me deparei com o maior desafio que eu já tinha vivido em toda minha vida e acho que quem é mãe sabe o que é ter um recém-nascido! Digo isto, por que já há anos eu tenho um filho de coração, o meu zuzuquinho, o Pedro, que eu amo igual ao Paulo. Só que o Pedro entrou na minha vida já com dois anos e meio, super saudável e já numa etapa bem mais tranquila.

    Quem teve um recém-nascido com cólica e refluxo deve me entender. Mas, não é tão simples assim, o pior é quando você não tem um diagnóstico e ninguém sabe que é só realmente a cólica e o refluxo que estavam fazendo o seu bebezinho se recusar a mamar ou a pegar qualquer mamadeira. Você consegue imaginar um bebê que não pega mamadeira? Eu não sabia nem que isto era possível?

    Pra piorar em meio a correria para ele ganhar peso e se alimentar ainda descobrimos que um dos rins dele não estava funcionando. Foi um pânico, um sufoco danado!

    Em meio a isto tudo ainda entramos numa crise financeira brava, pois além dos custos extras com médico desde o parto e agora com meu filho também tive problemas trabalhistas, recebendo quase nada de salário no tempo de licença.

    Aos poucos, no entanto, tudo foi voltando ao normal, a cólica e o refluxo do meu filho passaram e como o rim é um órgão duplo e ele tem um que funciona normalmente, meu filho está bem. É como me explicou o anjo Dr. Luiz Afonso, o nefro mais doce e competente do mundo...”seu filho pode fazer tudo, exceto uma coisa: doar o rim”.

    O equilíbrio financeiro ainda não está 100%, mas, estamos lutando, cortando custos e graças a amigos muito queridos que nos emprestaram dinheiro nos livramos de juros bancários e estamos aos pouquinhos nos organizando.

    A crise financeira é geral.

    Os escândalos e a queda das ações da Petrobras, uma das maiores empresas brasileiras, foi o princípio da crise e das demissões massivas em todos os setores.

    Para mim, o impacto também foi no término do Edital Petrobras Cultural, minha esperança de recursos para o livro. A verdade é que esta bomba que caiu em cima da Petrobras prejudicou muito o povo brasileiro, pois a Petrobras era uma grande empregadora e sem dúvida a maior patrocinadora de projetos sociais, ambientais, culturais e socioambientais.

    Agora em Outubro de 2015, meu filho está graças a Deus bem e eu estou novamente me sentindo mais forte para retomar a luta pela realização deste sonho do livro, que começou em 2009 e fez eu aprender tantas coisas e até conseguir ajudar tantas pessoas.

    Este mês fui premiada com um generoso presente da Adriana, líder do Movimento das Mulheres das Ilhas de Belém, ela me ofereceu um espaço no site www.istoesustentavel.com.br, o portal que idealizei para ela, para que eu pudesse mostrar ao mundo o meu livro, que é baseado neles, nas iniciativas socioambientais praticadas por eles, que os valoriza e apresenta a sua cultura.

    Fiquei emocionada com isto e se você está lendo esta matéria toda é graças a este gesto dela.

    É por isto que iniciei toda esta redação escrevendo que às vezes não conseguimos prever e nem entender o nosso destino, mas, com certeza, se a cada desafio mantivermos a fé e a determinação, uma hora os frutos aparecerão.

    Às vezes, eu comento com meu marido, que talvez os meus méritos sejam todos muito contados, por que parece que é só através da minha generosidade mais despretensiosa que eu conquisto os meus mais especiais sonhos!

    Será que agora chegará a minha hora de trabalhar como escritora?